29 de out de 2013

RUI BARBOSA – Oração aos Moços



  
– PEDRO LUSO DE CARVALHO


Na época em que frequentei o Curso Clássico, no Colégio Pedro II, em Blumenau, SC, já procurava conhecer os principais juristas nacionais e estrangeiros, porque estava convencido de que a advocacia não cederia lugar para outra profissão. Assim, deixei Blumenau para prestar exame vestibular na Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre, RS. Aprovado, iniciei meus estudos jurídicos, sem perder a convicção de que estava no caminho certo.

Inspirado nos juristas brasileiros mais antigos, dentre eles Clóvis Beviláqua (1859-1944), Tobias Barreto (1839-1889) e Rui Barbosa (1849-1923), resolvi inscrever-me para o curso da Escola Superior da Magistratura, também em Porto Alegre (cidade que escolhi parar morar). A minha intenção não era de preparar-me para fazer concurso para a magistratura, mas, isto sim, aprimorar meus conhecimentos. O Curso da Ajuris tinha uma carga horária bastante significativa, e exigia muito dos alunos; pouco mais de trinta por cento conseguia ser aprovado. Consegui ficar no rol dos aprovados. Apanhei meu diploma e coloquei-o numa gaveta para, daí em diante, enfrentar o grande desafio: o exercício da advocacia.

Como disse acima, Rui Barbosa figurava entre os juristas brasileiros mais importantes, para mim; daí a leitura obrigatória dos textos que encontrava do Patrono dos Advogados, ou dos textos escritos sobre a vida e a obra do mestre. Isso, antes mesmo de cursar a Faculdade de Direito. Naquela época, encontrei, na biblioteca do Colégio Pedro II, Oração aos Moços, a sua obra mais conhecida, escrita para ser pronunciada por ocasião da formatura da turma de 1920, da Faculdade de Direito de São Paulo, da qual foi seu paraninfo. Por motivos de saúde, Rui não pode comparecer à colação de grau. O discurso foi lido pelo Professor Reinaldo Porchat.

Agora, ao reler Oração aos Moços, chamou-me a atenção o prefácio da obra, escrito por Edgard Batista Pereira, texto que, no meu entender, não pode ficar restrito apenas a quem faz a leitura do livro. O prefácio de Batista Pereira mostra-nos fatos relacionados com a obra e a vida de Rui, nessa época, bem como fala da insistência do jurista em dizer que o que escrevia não era literatura. Vejamos, pois, os trechos mais importantes do aludido prefácio:

Agosto de 1918, Rui se insurgiu contra a denominação de literário que lhe havia pretendido dar ao jubileu. Qual é – pergunta ele – na minha existência, o ato da sua consagração essencial às letras?... Prossegue Rui: Traços literários não lhe minguam, mas em produtos ligeiros e acidentais, como o Elogio do Poeta, a respeito de Castro Alves; a oração no centenário de Marquês de Pombal; o ensaio acerca de Swift; a crítica do livro de Balfour; o discurso do Liceu de Artes e Ofícios, sobre o desenho aplicado à arte industrial; o discurso do Colégio Anchieta; o discurso do Instituto dos Advogados; o parecer e a réplica acerca do Código Civil; umas duas tentativas de versão homométrica da poesia inevitável de Leopardi; a adaptação do livro de Colkins e outros artigos esparsos de jornais, literários pelo feitio ou pelo assunto.

E, no afã de demonstrar que sua obra não era literária, Rui conclui:

Tudo o mais demonstra que esses cinquenta anos me não ocorreram na contemplação do belo, nos laboratórios d’arte, no culto das letras. Tudo o mais está evidenciado que a minha vida toda se desdobra nos comícios e nos tribunais, na imprensa militante ou na tribuna parlamentar, em oposições ou revoluções, em combate a regimes estabelecidos e organização de novos regimes, o que ela tem sido, a datar do seu primeiro dia, a datar do brinde político a José Bonifácio, em 13 de agosto de 1868, é uma vida inteira de ação, peleja e apostolado.

Edgard Batista Pereira se pergunta e responde a ele próprio, nesse texto do prefácio de Oração aos Moços:

Teria sido por orgulho que Rui declinava dos lauréis da arte para só reivindicar os da política? Não. Levantava contra uma denegação evidente de justiça o protesto que estava implícito numa frase de Nabuco: É tão próprio chamar a Rui de artista como a Krupp, o fabricante de canhões. A comparação é precisa. Ninguém no Brasil os forjou de tão grosso calibre quanto os que ajudaram a arrasar a fortaleza do cativeiro e a derrubar o regime monárquico.

Edgard Batista Pereira vai mais longe, dizendo que chamar o jubileu de Rui de literário seria o mesmo que chamar de cívico ao de Machado de Assis, acrescentando, mais adiante: “Tudo que lhe saia da pena, pela propriedade, pelo esmero, pela harmonia, pelo inesperado fulgor das imagens, trazia a marca da perfeição. Porém a sua meta era outra: a defesa do direito e da liberdade”.



REFERÊNCIAS:
BARBOSA, Rui. Oração aos Moços. Prefácio de Edgard Batista Pereira. Rio de Janeiro: Edições Ouro, 19-. Direitos cedidos pela Casa de Rui Barbosa.


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