9 de dez de 2011

RUI BARBOSA / Intriga, Mentira e Detração

Rui Barbosa


                   por Pedro Luso de Carvalho


       No plano político, em especial, os brasileiros convivem, nos dias que correm, com atos sem precedentes de corrupção de seus políticos. Essa escalada das raposas, de forma exacerbada, iniciou-se no primeiro mandato presidencial do Senhor Luís Ignácio Lula da Silva e teve curso no seu segundo mandato; o presidente nada via, e dizia desconhecer quaisquer atos de corupção no seio de seu Governo.

         Não se pode negar que o brasileiro orgulha-se da conquista da democracia, depois de ter vivido por duas décadas sob a força das armas, imposta pela Ditadura Militar; militares que, ao invés de defender seus cidadãos, os tinham a seus pés, amedrontados e dominados. Hoje, são os maus políticos que desrespeitam esse povo pobre e sofrido; políticos, que sequer lembram de quem os elegeu para representá-los. 

        Assim, na época da ditadura, como agora, no regime democrático (não de todo sólido), o brasileiro sente-se desprotegido; é chamado apenas para pagar os elevados impostos, que pagam os altos salários dos apaniguados, que integram as altas esferas dos três poderes. Esses “felizardos” desconhecem “iguais”, que não sejam os seus pares; essa minoria, pertence a uma casta, que se encontra no topo da pirâmide social. E, a cada eleição, esses políticos envolvem o povo com entriga, promessas e mentiras. 

        Então, nada mais oportuno que este texto de Rui Barbosa - que segue -, para vermos que nem o tempo, nem as formas de governo, nem homens e mulheres, que se revesaram nos governos, são capazes de mudar para melhor as condições de vida dos brasileiros, por serem, salvo excessões, homens com deformação de caráter. Segue, pois, o texto de nosso grande humanista, tribuno, político, jornalista, advogado, jurista:  


                               
                               [ESPAÇO PARA REFLEXÃO]

                 INTRIGA, MENTIRA E DETRAÇÃO

                                                                                (Rui Barbosa)



       Na vida moral, como na física, a confinação exclui a pureza e a saúde. Só a liberdade as cria e mantém. Na liberdade os homens se benquerem e amam uns aos outros, como o Criador mandou que nos quiséssemos e amássemos. Na servidão se aborrecem e malquerem, se guerreiam e destoem, como ao espírito de inimizade, que é a contradição da obra divina, convém que nos malqueiramos, e briguemos, que nos hostilizemos, e destruamos.

        Quando um povo cai e se deixa estar debaixo de influências tais, a injustiça, a inveja, a maledicência lhe envenenam as fontes da vida. Não prospera senão o que rasteja. Tudo o que medra com independência, é mal visto. Só uma soberania, só uma inviolabilidade, só uma religião tem coroa e culto indisputados; a da intriga, mentira e detração.

        Não há, bem sei, região habitada, onde não se desconheça a deslisura, a falsidade e a denigração. Em toda a parte há maus e malévolos, malfazentes e maldizentes. Porque em toda a parte existem as sementes da maldade.

        Toda a diferênça vem a consistir em que paragens há, onde se vê perseguido o mal, e outras, onde reina. 

        Nas primeiras, quando os interesses revoltados contra a honestidade bradam, ou se esganitam contra um homem público, uma vez esmagada a invenção, liquidada está para sempre. Embora a mentira continue a rosnar, nunca mais encontra dentes, com que morda, ou que mostre.

        Nas outras, onde é endêmica a difamação, como a cólera nas margens do Ganges, ou a malário nas do Amazonas, a mentira não perde jamais a mordacidade. Tem aos incisivos como o privilégio dos de certos animais, cujos dentes não se gastam nunca: antes quanto mais roem e trituram, quanto mais cortam e atassalham, mais se renovam e crescem, mais se anavalham e reguçam.

        O falso testemunho que aí uma vez se levantou contra alguém, poderá hibernar como os arganazes, mas, como eles, ressurgirá mais vivaz da hibernação. Dons da rataria, assombrosa na fecundidade e, na resitência, invencível, inextinguível.


         
          (In Rui Barbosa e o Exército. Conferência às Classes Armadas. Rio de Janeiro: Casa de Reui Barbosa, 1949, p. 33-34.)


                                                                   
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